Eleições 2022: o que pensam os jovens potiguares sobre o voto em outubro


 Adolescentes que votarão pela primeira vez discutem educação, discurso de ódio e democracia. Foto: Ingrid Furtado e Estefanny Bernardo


Por Ingrid Furtado e Estefanny Bernardo

As eleições de 2022 estão promovendo um grande engajamento jovem dentro e fora das redes sociais. Em escolas, universidades, institutos federais, grêmios estudantis e em grande peso, nas redes, a geração daqueles e daquelas que irão votar pela primeira vez está se tornando cada vez mais ativa politicamente.

Dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados em julho deste ano mostram que o eleitorado no estado do Rio Grande do Norte cresceu nos últimos quatro anos. O percentual de 7,6% de crescimento está acima da média nacional, que é de 6,21%. O aumento se relaciona principalmente ao novo contingente de eleitores jovens, entre 16 e 17 anos, que não tem obrigação de votar.

O número de jovens potiguares nessa faixa etária e que possuem o título de eleitor pulou de 29.065 para 45.967 nos últimos quatro anos. Isso representa um aumento de 58,15%, que também está acima da média nacional de 51,13%.

Esse crescimento do eleitorado jovem está relacionado especialmente às campanhas do TSE, como a “Bora Votar!” e a “Semana do Jovem Eleitor”, e às celebridades que usaram as redes sociais para mobilizar adolescentes a emitirem o título de eleitor em março deste ano. Se posicionaram através das redes artistas como Anitta, Juliette, Zeca Pagodinho, Mark Ruffalo, Whindersson Nunes, Luíza Sonza, entre outros.

Hoje, os dados do TSE comprovam o sucesso dessas campanhas e destacam o papel dos jovens eleitores em decidir os rumos das eleições de 2022. A liderança do Rio Grande do Norte nesses números revela um engajamento político forte no estado, que é historicamente pioneiro em pautas eleitorais progressistas, como o voto feminino.

O que dizem os jovens

Mossoró foi uma das cinco cidades potiguares com maior número de eleitores aptos, segundo dados do TSE. O aumento do número de eleitores jovens é um fator importante em uma cidade que, apesar de marcada pela política oligárquica, contém forte articulação política dentro das instituições de ensino públicas. O interesse dos jovens estudantes no voto e na participação política no Estado pode expressar um desejo de renovação.

Em um cenário político tão inflamado, a participação dos adolescentes é decisiva para os resultados. Entre os alunos da rede pública escutados pela reportagem não existe consenso: enquanto alguns enxergam a importância do voto e anseiam pelo exercício da cidadania, outros entendem como uma burocracia, com resultados abstratos.Entre aqueles mais engajados com a política, as preocupações são claras: educação, democracia e liberdade de opinião. Se identificam com a esquerda, relembram os momentos políticos que marcaram o seu crescimento, sentem falta da estabilidade democrática que viveram na infância.

Os jovens mais afastados da política, que irão votar pela obrigatoriedade, apontam a dificuldade de fazer uma escolha, o excesso de informações e pouca esperança em mudanças efetivas.

Política dentro das escolas

O afastamento ou aproximação da vida política é resultado de múltiplos fatores, apontados por eles, como a influência familiar e a articulação política dentro da escola. No Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), a expressão política é mais presente e reconhecida pelos próprios estudantes.“Em comparação ao meu antigo campus, eu acho esse campus muito mais engajado politicamente em causas sociais”, conta Élen Liz, 18 anos, aluna do terceiro ano, que antes estudava em uma escola privada católica. Seu colega de turma, Zahid Figueiredo, 18 anos, complementa: “Acho que principalmente pelos cortes [de verba] que foram feitos pela atual presidência”.

Além da condição de estudante ser um fator que influencia o alinhamento político, nas escolas o grêmio estudantil trabalha ativamente em prol dessa politização. Os alunos do IFRN contam que a organização incentivou a emissão de títulos de eleitor tanto de alunos quanto de não-alunos. Campanhas semelhantes também foram empregadas em outras escolas, através de grêmios ou de iniciativas externas, como foi o caso da Escola Estadual Professora Maria Stella Pinheiro Costa.

Na escola Professora Maria Stella, existe interesse em tornar o ambiente mais ativo politicamente através da criação de um grêmio estudantil, como conta Olavo Medeiros, 20 anos. Estudante do terceiro ano do ensino médio, ele esclarece: “Aqui a gente tinha o plano, já tinha a chapa, tudo pronto, mas teve outra onda de Covid e ficou uns quinze dias sem aula Quando voltou, estava faltando água, aí acabamos deixando de lado”.Nesse contexto, o interesse pelo voto surge, principalmente, para mudar o cenário atual. Estudantes de ambas as escolas expressam uma demanda imediata por investimentos na educação, para que não haja mais greves, cortes, falta de materiais básicos e evasão escolar.

Como se informam?

Os adolescentes destacam o papel das redes sociais como fonte de informação, principalmente o Twitter. Através das polêmicas e dos assuntos mais comentados nas redes, os jovens buscam informações complementares de jornais.

Júlia Cristiane, 17 anos, aluna do terceiro ano no IFRN, explica o apelo que as redes têm sobre os jovens: “A Internet é algo bem acessível atualmente, então a qualquer momento eu posso tirar meu celular [do bolso] e me informar. Agora, por exemplo, os jornais na televisão, é muito complicado porque às vezes eu tenho uma rotina que não me permite sentar e assistir. Então não é algo que eu usaria para me informar”.

Passado, presente e futuro: experiências e reflexões

Poder votar é também expressar desejos que foram suprimidos em eleições anteriores nas quais não podiam participar. “Eu me sentia meio impotente em não poder votar”, diz Júlia, “mas eu sempre tentava discutir para tentar fazer as outras pessoas entenderem a realidade que eu via e na esperança de poder também influenciar e mudar o cenário”.

Quando questionados se o sentimento de impotência permanece, a resposta muda. “Não me sinto mais como antes porque agora eu estou exercendo o meu direito”, explica Zahid. “Várias pessoas, como nós três, estão exercendo seu direito pela primeira vez, principalmente os jovens”.

A esperança, no entanto, não é tudo. “Eu estou com mais medo [das eleições] do que ansiosa”, diz Élen. Além de expressarem preocupação com possíveis rupturas democráticas, também existe a tensão gerada pela violência política entre eleitores. “Eu tenho medo em questão dos eleitores do atual presidente”, pontua Zahid, “Isso não vai mudar minha opinião política, mas eu me sinto insegura sim”.

Apesar da divisão entre os que se interessam ou não por política, há um consenso sobre a importância do voto jovem nas eleições deste ano. “Essa geração, como eu disse, vai possibilitar mais gerações assim, diferente dos ensinamentos que a gente já teve”, pensa Júlia sobre o futuro. Já Olavo, imagina que poder votar mudará sua vida: “Como vai ser meu primeiro ano, acho que meu voto vai valer muita coisa. Acho que vai me influenciar em algumas coisas, principalmente agora que vou acabar me envolvendo no meio político”.

*Esta reportagem integra o ciclo de publicações do projeto “Educação e jornalismo: ocupando o vazio de notícias do RN”, financiado pela Meta através do programa International Center for Journalists (ICFJ) e foi escrita pelas estudantes de jornalismo da UERN Ingrid Furtado e Estefanny Bernardo.
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