O início da ditadura militar marcou a história brasileira, mas também
facilitou, neste canto do planeta, a eclosão de outras. "Um novo modelo
de golpe e de regime político para vários países latino-americanos",
escreve Marcos Napolitano em "1964".
Na segunda metade do século 20, a ideia de conter a ameaça comunista
atingiu seu ápice. Com a Guerra Fria, os líderes do "mundo livre"
olhavam para os países do Sul com desconfiança, principalmente depois da
Revolução Cubana.
"Defendo a interpretação de que em 1964 houve um golpe de Estado, e que
este foi resultado de uma ampla coalizão civil-militar, conservadora e
antirreformista, cujas origens estão muito além das reações aos
eventuais erros e acertos de Jango", diz Napolitano.
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| Historiador discute as principais questões dos "anos de chumbo" |
Segundo o autor, uma aliança golpista ganhava força desde a crise política de 1954, que culminou no suicídio de Getúlio Vargas.
Essa coalizão encontrou um caminho quando João Goulart assumiu a
presidência, após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. "Mirando os
comunistas, os golpistas de 1964 varreram o reformismo da agenda
política brasileira".
"Entretanto, não endosso a visão de que o regime político subsequente
tenha sido uma 'ditadura civil-militar' ainda que tenha tido entre os
seus sócios e beneficiários amplos setores sociais que vinham de fora da
caserna, pois os militares sempre se mantiveram no centro decisório do
poder".
Meio século depois de seu início, o período de ditadura militar no
Brasil é revisitado por Napolitano, que procura compreender questões
pendentes sobre esses anos de chumbo no livro.
"Trata-se de um regime complexo, muitas vezes aparentemente
contraditório em suas políticas, que mobilizou vários tipos e graus de
tutela autoritária sobre o corpo político e social, articulando um
grande aparato legal-burocrático para institucionalizar-se, aliado à
violência policial-militar mais direta", conta.
Doutor em história social, Marcos Napolitano é professor do departamento
de história da USP (Universidade de São Paulo) e também assina, entre
outros títulos, "Como Usar o Cinema em Sala de Aula", "Cultura Brasileira: Utopia e Massificação" e "Fontes Históricas".
Fonte: Folha de SP